a culpa pode ter um aspecto positivo, mas talvez tenda a ser, principalmente, coisa negativa.
o sentimento de culpa, exceptuando raríssimas e pontuais circunstâncias, é pouco agradável e, em mui diferentes graus e amplitudes, dificulta a vida
mas a vivência da culpa é muitíssimo diferente no caso de a culpa resultar do julgamento próprio (com ou sem razão) ou de resultar do julgamento dos outros (com ou sem razão).
conheço muito poucos jogadores da selecção nacional de futebol. não é snobismo ou pretensiosismo, apenas não tenho visto jogos de futebol nos últimos anos.
de facto, não sei os nomes deles.
mas, não sabendo isso, sei outras coisas, umas que sei que sei, outras que vou descobrindo que sei.
purizemplo, sei, minimamente, ler os lábios. isto nada teria de extraordinário (e continuará a não ter) se eu não tivesse tido a consciência de que o sei fazer até quando as frases são em duas línguas.
no jogo de portugal contra o ubzeq, uszqueb, no último jogo de portugal li mui claramente a frase "yellow card, filho da puta!".
não sei como se chama o moço que disse isso.
sei que marcou o segundo golo, logo, é fácil de identificar.
qualquer criancinha do sbortem o consegue fazer.
só vi a marcação do golo no intervalo, derivado a estar a atender a situações mais ou menos urgentes.
há muitos anos, tendo esticado ao máximo, calhando até para lá disso, a minha linha argumentativa sobre um tema de que não me lembro, e quase em desespero de causa, proferi a lapidar frase:
a afirmação do óbvio implica uma superação do óbvio.
estranhamente, e graças a todos os deuses, não houve follow-up questions. apenas de fez um silêncio reflexivo e/ou reverencial.
péssima decisão... uma manhã de primavera, inteirinha, a ver testes de merda.
não digo uma peça de fruta, mas poderia dizer. seguramente uma volta de bike, uma caminhada, dar uma volta de mota, qualquer merda prá saúde do corpo e da cabeça, preferencialmente de ambos.
emfim...
felizmente a radar esteve bem, apesar de eu achar que reciclaram um programa de um dezembro qualquer... ou então estão mesmo já, agora, a pensar no natal.
tenho carradas de merdas para fazer, como sempre. corrigir testes e fazer um trabalho para a formação de lógica proposicional encabeçam a lista, que inclui coisas muito mais importantes, como mudar a roda de trás da chaimite (apesar das temperaturas quase proibitivas para ir de bicicleta pó trabalho) ou aspirar a casa...
em vez de, estive a ler "uma coisa supostamente divertida que nunca mais vou fazer", de david foster wallace. mais precisamente "federer, carne e não só", devido ao número de páginas, compatível com a minha culpa de não estar a fazer nada de (mais) produtivo.
pessoas menos esclarecidas talvez dissessem "mais valia teres ficado a dormir", mas não...
o nome dizia-me algo. ainda diz, mas não sei o quê. isto é, já ouvi o nome, já contactei com a referência, mas não me lembro das circunstâncias e muito menos do contexto. mas foi um nome que fixei.
acontece-me muito, com nomes. nem só nomes de pessoas. por exemplo, aconteceu-me com o nome da capital de madagáscar, mas não o sei de cor. mas fixei. e quando o ouvir, se o reconhecer, repararei que o havia fixado. "anna" deve ter a ver, pois estabeleci uma relação mental entre anna e o nome da capital de madagáscar, que desconheço.
fui ver
(não quem era, e muito menos era a neve, que estamos em fase de onda de calor, que seria um nome mais ou menos para uma novela da hora do almoço se não estivesse associada a destruição e morte e incêndios e gado com sede e isso tudo)
antananarivo
é a capital de madagáscar.
e a minha associação a "anna" só pode vir do facto de os locais usarem o diminutivo "tana" para a sua capital.
não sei o que sabia sobre david foster wallace, mas, até há poucas horas, de facto ou conscientemente, nada sabia.
e pouco melhor estou, apesar de duas circunstâncias mui ilustrativas, para mim, de que tomei conhecimento: parte da sua obra e o seu suicídio.
leio, nas palavras de rui cardoso martins e no livro "as melhoras da morte", a seguinte frase:
as melancias são mais sossegadas, disse o violador de ovelhas.
um homem morreu triste e tragicamente.
esse homem era um violador de ovelhas, mas, para além dessa inocente actividade, fazia favores sexuais a homens de bem, com imaculada reputação, digníssimos chefes de família, a troco de maços de tabaco ou garrafas de vinho.
um destes homens, para atestar a sua modernidade e amplitude de espírito, permaneceu sentado, imóvel, acompanhado pela esposa ténue e contrafeita, nas tábuas entre cadeiras que constituíam a plateia das sessões de cinema numa colectividade de província, para a segunda sessão da noite, já não um filme de pancadaria, mas antes um filme escandinavo, hard-core, de grandecíssima qualidade, jamais, no entender de alguns, igualada posteriormente. o acender de luzes não foi bonito, antes muito confrangedor em alguns casos.
este mesmo homem sugeriu ao futuro genro uma abóbora. em rigor, uma abóbora deixada ao sol, para aquecer (sempre achei este pormenor técnico uma referência de fino recorte).
duvido muito que me cruze com uma análise comparativa entre abóboras e melancias, mesmo tendo já contactado com este processo aplicado a outros vegetais.
na ribatejana cidade de almeirm descubro, à vista, como convite, das mentes mais dúcteis (quero acreditar), a obra "ramonera*", de elvis guerra.
elvis guerra é muxe’.
não é um muxe’ nem uma muxe’, é muxe’.
soube, há um ano ou dois, que ela(e) iria ao folio, em óbidos. fiquei sabedor disso exactamente no mesmo dia em que fiquei a saber o que significava muxe’.
folheio o livro. é poesia.
e estou há bastante tempo preso a:
gunaxhiee naa dxi ratania’
ti binnigola napa xtale iza.
em zapoteco até nem soa mal. isto é, não faço a mínima ideia como soa.
já em português...
amei-me quando me deitava
com um velho de cinquenta e oito anos
* um Ramón é um homem que se apresenta ao mundo como muito macho e heterossexual, mas que, quando está com uma muxe’, aceita secretamente ser penetrado. Ramoneras são muxes que assumem, durante o sexo, o papel considerado masculino