Em 2012, já com mais de 80 anos, Cecília tomou a decisão de restaurar o quadro “Ecce Homo”, de Elías García Martínez. O facto de não saber pintar não a deteve. O quadro original representava Jesus Cristo com uma coroa de espinhos, a cabeça inclinada em sofrimento resignado. Quando Cecilia Giménez terminou de o restaurar, o quadro exibia um anónimo que parecia ter sobrevivido a um incêndio, mas agora estava, apesar de desfigurado, com um barrete que aparentava ser quentinho. Tinha um arremedo de nariz, uma vaga boca esbatida, e uns olhos que se diria terem sido pintados pelo próprio Modigliani, se o pintor italiano tivesse tido dois enfartes.
ricardo araújo pereira, no expresso de hoje
o título deste post é o mesmo de um jornal humorístico editado durante meia dúzia de semanas (ou menos), em meados dos anos oitenta. o clube de imprensa alega que apenas saiu o nº 1, eu 1983, mas eu tenho a certeza (?) que comprei dois ou três números, pelo menos.
este dia teve chatices várias em diferentes horas do dia.
acontece.
faz parte.
tenho as minhas formas de calibrar as cenas na minha cabeça.
não que seja só benéfico ou que seja pacífico. é o que é, sou como sou.
uma delas é fazer pausas, que, às vezes, se arrastam por muito mais tempo do que o devido (por exemplo, fui mesmo confirmar o que o clube de imprensa dizia sobre o jornal. ali em baixo deverei incluir um excerto do artigo) e que, arrastando-se ou não, são sempre acompanhadas por auto-recriminação.
seja como for, o excerto acima provocou uma reacção análoga à de alguns textos d'o bocas, ou a de duas ou três páginas (mais essas, muito mais do que todas as outras desse livro, apesar da sua prodigalidade, neste sentido) de um livro de tom sharpe. ou a uma frase, especificíssima, de outro livro do mesmo autor, que incluía um ralador...
digamos que provocou a reacção que levou o sr. luís a pensar que eu deveria ser deficiente a avaliar pelo comportamento exibido.
o humor tuga, tal como no aludido artigo:
Existe um tipo de Humor característico da gente lusitana? Sim, existe. A tradição vem muito de trás, de Gil Vicente, com o seu linguajar vernáculo. E das cantigas de escárnio-e-mal-dizer. E dos antigos “robertos-de-feira”, cujas piadas eram sempre sublinhadas à traulitada. A nossa sátira baseia-se, historicamente, quase sempre, na piada pesadona, bruta, malcriada, perante a qual o Humor refinado é como uma picadinha de alfinete, em comparação com uma valente cacetada.
Não é, portanto, um Humor requintado e elegante, muito longe disso. E também aqui, como noutros capítulos da produção artística destinada ao grande público, este tem, como costuma dizer-se, aquilo que merece e de que gosta. Os Autores trabalham “em estilo grosso” para um público que não é fino.