2021/07/31

prémio de consolação


noutra vida dei por mim com uma guitarra nas mãos,
com outros gajos também com guitarras nas mãos.
nunca tive a disciplina para aprender a tocar com um mínimo de qualidade
(nem para outra qualquer coisa, acho)
mas existe música em mim.
sempre existiu.
por mais desajeitada que seja a minha forma de a expressar,
a minha forma de a sentir,
a minha forma de a viver.
não faz mal.

também nunca ganhei um prémio (se ganhei foi por acidente).
pelo menos dos que esta canção fala logo no início...

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deram-me a conhecer isto.
e isto tocou-me.

"...
sur toute une vie dont il n'est rien resté qu'un tatouage obsolète
sur ma peau delavée...
...
marcher dans les rues à pleins poumons, 
l'odeur des femmes
de leur giron... "

"ao longo de uma vida da qual nada resta, 
exceto uma tatuagem obsoleta na minha pele desbotada...
...
andando pela rua a plenos pulmões,
o cheiro das mulheres, do seu seio..."

2021/07/29

ex-estância

é o tempo 
do artifício 
de não existir tempo.

é a vida
e o malefício 
de ser só uma.

acontece o vento, que passa por nós como se nos conhecesse, tocando-nos.

e ao chegarmos à praia
há uma voz que nos chama.

hollow

 “between the idea
and the reality
between the motion
and the act
falls the shadow

between the conception 
and the creation
between the emotion
and the response
falls the shadow

life is very long

between the desire 
and the spasm
between the potency
and the existence
between the essence
and the descent
falls the shadow ”

t.s. eliot, "the hollow men" (excerto)

2021/07/28

2021/07/26

i had these sunglasses...

deep insertion


 

hell bound

 


o meu comentário a esta imagem, que representa a aleitação de s. bernardo de claraval, publicada por um amigo:
- quem nunca?...

em paralelo, ocorreu-me uma legenda:
- olha-me nos olhos quando trato de ti...

não sou exemplo para ninguém.

2021/07/22

2021/07/19

2021/07/13

padrões

um bacano, no exame, respondeu à escolha múltipla em maiúsculas:
CACAABBADC

eu vejo mais além: 
CACA
ABBA
DC

agora é só arranjar uma teoria da conspiração que encaixe aqui e está feito...


2021/07/12

"da educação dos príncipes" ou "o déspota"

tendo incorrido na prevaricação habitualmente designada, por aqui, pelo menos, de parvoíce, foi o mainovo incumbido de tarefa específica.
apresenta-se o resultado:

Após uma detalhada, e inoportuna, pesquisa, dei-me a conhecer, para agrado do meu pai e progenitor, a história mitológica de Dâmocles. Reza a lenda que Dionísio reinara Siracusa, uma grande cidade na ilha de Sicília de uma forma tirana e atroz. Contudo Dionísio era um homem poderoso, tinha um grande palácio, muitos criados, vinhos raros, festas constantes. Dâmocles seu amigo, considerara-o o homem mais feliz do mundo e sentia também alguma inveja. Um dia Dionísio propôs um acordo: Dâmocles passava um dia no seu lugar para realmente averiguar se Dionísio era, de facto, o homem mais feliz do mundo. Dâmocles aceitou e teve de facto um dia divino, digno do homem mais feliz do mundo, no entanto a certa altura olhou para cima e reparou numa espada presa ao teto por um tênue fio com uma lâmina que a qualquer momento podia cair e acabar com toda aquela felicidade. Depois deste episódio, Dâmocles apercebeu-se de o quão ilusória é a felicidade dos ricos e poderosos.
Esta bonita história é excelente porque nos representa a todos. Dâmocles representa a inveja que nós temos em relação aos poderosos, e Dionísio representa a ideia da morte que está tão presente quanto a espada sobre a sua cabeça. No entanto Dâmocles não estava errado ao julgar Dionísio como um homem feliz, pelo contrário, porque (na minha opinião) apenas podemos ser felizes se tivermos de facto muito a perder. Todos nós temos de facto uma espada suspensa por cima das nossas cabeças, e às vezes só quando estamos, de facto, a ser felizes é que nos lembramos da fria espada.
Como seres humanos que somos iguais a Dionísio, podemos ter todo o poder do mundo, mas a espada está sempre lá, e nunca se vai embora.

é assim.
a vida custa a todos e as coisas são como são.

2021/07/08

pilha

sou daquelas pessoas que tem os livros de mesa de cabeceira espalhados pela casa.
na dita mesa de cabeceira jazem, neste momento:
os crimes do amor, marquês de sade
o estorvo, de chico buarque
o ano da morte de ricardo reis, de josé saramago
epítome de pecados e tentações, de mário de carvalho

há quarenta e um anos, mais ou menos, eu tinha uma bicicleta verde, que tinha um suporte com umas molas que seguravam com grande eficácia três ou quatro livros, maioritariamente de banda-desenhada.
eu lá ia, não sem alguma dificuldade devida ao sobrepeso e aos desníveis, até um local que achasse aprazível, à sombra de uma árvore, afastava-me do mundo (dos outros) e não reparava na passagem do tempo. habitava uma realidade paralela.
ainda hoje gosto de ler, mas sou menos esquisito com o local ou ambiente circundante. o afastamento consegue-se, não obstante.

sou e não sou, hoje, a mesma pessoa.

a vida de hoje torna difícil a procura de sombras aprazíveis e a passagem do tempo faz-se anunciar tantas vezes de forma violenta e inoportuna...


2021/07/07

namib ocre


no mais antigo deserto do mundo, árvores mortas não apodrecem e mantêm-se de pé desde há muitos séculos, quando um rio passava por aqui.
a beleza triste da memória de vida.

a realidade dispensa a nossa existência.


 

2021/07/03

exame de português - código 639

o tempo é como os bifes: bem passado, mal passado e medium rare... (faz de conta que significa meio raro)

o tempo passa e resta a vida.
ontem morri um bocadinho.
hoje estou a morrer um bocadinho.
haverá que viver o que restar.

a vida é como é.
a vida não é como deveria ser.
ainda bem, presumo. não faltariam diferentes opiniões sobre como deveria ser.
pensando melhor, já há. é até coisa que não falta...
eu é que me esqueço, com todos os perigos que isso comporta.

por vezes a vida mais vivida é a que se não vive, tal como eu li ontem num conto do mário de carvalho:
um homem que tivera várias amantes, durante e após um casamento, vivia num lar (era "idoso") e passava os dias a pensar numa única mulher. 

joão da cruz para simão  - "amor de perdição":
"as mulheres são como as rãs do charco, se mergulha uma, aparecem quatro à tona de água."
que merdas andamos nós a ensinar aos cachopos?
que merdas aprendemos nós?
como dizia a Rainha Tonta (ou diria, se fosse mesmo tontinha de todo):
- não são merdas, meu senhor, são rosas.(1)

como a rosa tatuada, que tennessee williams adaptou para cinema, de propósito para uma mulher/actriz (passe a redundância) italiana de olhar magnético.

o mundo passa tão depressa...
tão depressa que até restos de mar nos vêm bater no rosto, nos olhos, na testa, no nariz (no nariz, ainda por cima)...  ainda que se esteja no campo, tão longe da costa. 
agarramo-nos o melhor que podemos ao presente (a costas dadas não se olha o dente) e esperamos o melhor!


(1) - «- Senhor Simão, vossa senhoria não sabe nada do mundo. Não meta sozinho a cabeça aos trabalhos, que eles, como o outro que diz, quando pegam de ensarilhar um homem, não lhe deixam tomar fôlego. Eu sou um rústico; mas, a bem dizer, estou naquela daquela que dizia que o mal dos seus burrinhos o fizera alveitar. Paixões, que as leve o diabo, e mais quem com elas engorda. Por causa de uma mulher, ainda que ela seja filha do rei, não se há de um homem botar a perder. Mulheres há tantas como a praga, e são como as rãs do charco, que mergulha uma, e aparecem quatro à tona da água.»


2021/07/01

ashes scattering


 

heteronomia

numa conversa animada e subversiva com os bambinos, eles falavam de literatura, autores, poesia...
surgiu a frase:
- ricardo reis falava com álvaro de campos e fernando pessoa... fernando pessoa é o das odes triunfais...
eu, muito em surdina: 
- deviam dizer coisas como " 'odes, 'odes... deves 'oder, deves..."

o mainovo riu-se muito. muitíssimo.