2007/11/05

a arestia da vida

saudações aos monstros que me esperam na praia. é deles o tempo como é meu o compromisso para com eles.
todos os chamamentos de todos os nomes são a mim que convocam.
o cascalho tem uma vida própria debaixo das minhas botas... e eu bem sei que das vidas as há de todos os feitios.
os lenços de assoar improvisados de papel de cozinha desdobram-se contra vontade e, às vezes, fazem-me lembrar de pastéis de tentúgal e, por associação, de restaurantes de beira da estrada onde, parece, se comem umas boas sandes de leitão.
ranho seco.
o que mais me custa nos suicídios colectivos são as crianças.

agora os ogres estão na neve mas continuam arenosos e fazem-me saber dos elásticos que seguram as meias na curva do joelho de um modo tão formal que eu não resisto e começo a disparar para o ar.

a única marca que restou dos dias de pintura foi um frasco de trebentina que só guardei pela óbvia onomatopeia: tre-ben-ti-na.

as sementes das minhas plantas são como animais de estimação ou um parente acamado... morrem mais por falta de cuidado e nem foi preciso ir a amsterdão para aprender isto.
às vezes rio-me de pensar em coisas como "o lodo é lúdico" ou "comboio, my lord, comboio"... mas nem sempre se consegue segurar água com as mãos. ainda que se logre manter a pressão durante muito tempo, a água desaparecerá inexoravelmente. aqueles que a conseguem guardar até que se evapore são referidos como exemplos de santidade e abnegação.

não faço a mínima ideia da cor, cheiro e consistência do líquido que os nossos olhos contêm.

eu sei que ele me olha agora de frente. sei-o com toda a certeza apesar de não ousar levantar o olhar para além da neblina. há dias que ele anda por aqui a rondar o rio... ele procura-me cada vez com mais impaciência, com aquele sentimento em rama de quem sabe falar muitas línguas para nunca as usar em qualquer momento de comunicação com outra pessoa.

a garrafa segue o exemplo das outras: deixa-se ir na corrente, revelando, estúpida e altivamente, um gargalo em movimentos oscilantes que fazem lembrar uma utilização obscena ou indecorosa de um clarinete.

a minha sombra voltou-se contra mim. pondero a possibilidade de a mandar abater ou, pelo menos, de a (mandar) castrar.
quando me assoo à manga, eles agitam-se pois sabem que estou pronto. estou onde me esperavam desde o início de todas as vidas de todas as nubentes.

"...e desapareço em espuma".

2 comentários:

Anónimo disse...

num fôlego só,
arrasador...
a tua lucidez é assustadora...
não tenho mais nada para dizer, apenas que o líquido dos meus olhos, neste momento, me sabe a sal...

pudera eu lamber a ferida...

um beijo

Anónimo disse...

há por aqui laivos de verdadeiro artista!
dás-um um autógrafo?