2021/03/20

amplexo

o encontro, a descoberta, a chegada, 
a vertigem, o encanto, o descompasso
presente logo ali naquele abraço
presente na partida antecipada

num dia todo feito para nós 
eu sou eu ali onde tu estás
em gargalhada o nosso corpo jaz
deitados muito juntos, pouco a sós

não basta a lembrança desse dia
é só um dia de vida, minha e tua
ainda que perfeito, o sol, a lua, 
o nosso olhar e o que nele havia

do futuro há o sentir, não o saber
o todo, bem e mal, compõe a vida
a cada nova entrada há uma saída
e há a dor do desejo de querer

(parece que a primavera começa hoje... 
não sei se acredito.)

2021/03/18

hot judge

ainda bem que o moço não morreu da outra vez...
se tivesse morrido, talvez eu nunca tivesse sabido disto (single line drawing, by Jean Negulesco):



















2021/03/16

pater

M. ofereceu-me um livro, prenda do dia do pai antecipada. eu tinha-lhe dito, como digo sempre e com toda a sinceridade, que não queria nada. nadinha.
era um livro que eu não tinha e que há anos queria comprar e ler: "o ano da morte de ricardo reis", do saramago.
foi isso mesmo que eu disse, quando recebi a oferta.
ela: eu sei, pai. eu ouço-te.
fez-me chorar.
porque me conhece bem.
e porque, dela, tendo isso, tenho tudo.
não é preciso mais nada.
nadinha.
 

fadeega

há diferentes tipos de cansaço...
eu tenho um tipo de cansaço que tende a diminuir através de outro tipo de cansaço. algo mais físico ou, pelo menos, menos mental.
mas, em termos profissionais, uma das causas está identificada, por mim, há muito tempo.
disse há tempos, numa reunião (mas duvido que tenha ficado em acta) que o programa para os alunos em confinamento deveria ser, se e quando possível, uma vida parecida com a de alguns mosteiros: trabalho no campo (mexer em terra, em coisas vivas) de manhã e leitura (de livros) à tarde. só isto, mais nada.

depois vejo isto e, não me surpreendendo, compreendo melhor.


2021/03/10

2021/03/09

2021/03/07

dez aço cego, parte II

li, por duas vezes, o "livro do desassossego"... 

por duas vezes o sublinhei e anotei. 
vou ter que o fazer outra vez. 

há coisas que mudaram em mim, logo, coisas que mudaram o texto, para mim. 
há coisas que, sendo as mesmas, em mim e no texto, são diferentes. 

na profundeza de uma noite recente, pensei na diferença entre sentir e pensar, e na relação disto com os espaços e a luz. 
mantenho o sublinhado, mas sei que a vida é outra (as coisas serão, eventualmente, as mesmas): "a manhã do campo existe, a manhã da cidade promete. uma faz viver, outra faz pensar."

"today i whore my hat... " ou "beer for breakfast"

2021/03/04

uma casa na pride(aria)

 

 richard taylor, sobre o orgulho: "the justified love of oneself". 

à pergunta,
respondi negativamente, pois só ouvi a pergunta com o tom negativo. 
foi positivo responder negativamente. 

mas, neste sentido de "amor próprio justificado", haveria a possibilidade de ser positivo responder afirmativamente, isto é, não negativamente. 

como (quase) sempre, estou na fronteira entre dois mundos. 
tento ser, com as forças que tenho. 

nim.

2021/02/28

nomes giros para um bar

izingono 
mugrons 
brystvorter 
tepels 
capezzoli 
meme uçları 
bradavky 
 
mas estou muito inclinado para: 
puting susu

2021/02/23

logo penso num título adequado

este é o corpo que tenho e que posso e quero dar-te... e quero o corpo que tens e podes dar-me.

2021/02/22

2021/02/20

a vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e de fúria...

 

sei dançar valsa. 
fez parte da minha educação, aprender. 
acho elegante, e lembro-me sempre que a valsa foi a primeira dança em que foi aceite, socialmente, o par se envolver mutuamente pelos braços. sempre gostei de coisas revolucionárias e elegantes, ao mesmo tempo. as comunistas tinham tendência a vestir-se mal, em tempos, mas isso não me impediu de amar uma comunista. 

passava do duche em frente a um aparelho de televisão ligado e que ninguém via... 
fiquei parado a olhar para o mar, no ecrã.  
e uma ilha. 
e uma ilha específica, no caso o Faial.  
enquanto arrefecia continuei em pé, especado, a ver. 
impressionou-me o testemunho de um ilhéu, madruga, de seu nome, que fez, em solitário, duas circum-navegações. 
só adquiriu um barco aos 49 anos. dois meses antes de partir (iria dobrar o cabo horn e sabia-o. sabia o que isso significava.), 2-dois-2 meses, nunca tinha velejado. 

já gelado, continuei em pé, a acompanhar as imagens e os sons. 
alguém disse que jacques brel tinha passado pela horta, também ele numa viagem de circumnavegação (que não concluiria). 
um médico de origem belga, que o tratou, na altura, àquilo que se pensara ser uma gripe (pouco mais tarde soube-se que era um tumor num pulmão) comentou: 
- achei interessante... ele viajava com a filha e com a amante. e isso não é lá muito convencional... 

pausei o programa. fui, finalmente, vestir-me (preciso mesmo de fazer exercício e de perder peso).

alguém perguntou, da sala, por que estava a tv em pausa. respondi, em voz perfeitamente audível (como se isso fizesse diferença): 
- porque eu tenho sentimentos ambíguos sobre as convenções... 
- quê? 
- PORQUE EU QUERO TOMAR CAFÉ A VER O QUE FALTA VER DESSE PROGRAMA!! 

jacques brel está sepultado no mesmo cemitério, nas ilhas marquesas, polinésia, onde está sepultado paul gaugin. a sua amante, maddly bamy, está sepultada ao seu lado.

como disse, fez parte da minha educação aprender a dançar.
e não faço a mínima ideia se ou onde serei sepultado.

2021/02/19

haze


 

forever

o meu cunhado defende a tese (e tenta viver segundo esse princípio) de que, se nós temos algo que não usamos há mais de dois anos, devemos desfazer-nos disso. apenas ocupa espaço e é algo de que não necessitamos. 

numa tentativa frustrada de arrumar as ideias arrumando "a casa", acabei de eliminar para todo o sempre de um disco externo uma pasta que, aparentemente, estava vazia... 
o relatório de eliminação informou-me que foram eliminados 54 ficheiros. esses ficheiros deveriam estar, muito provavelmente, ocultos. 

jamais saberei que "pedaços" de vida desapareceram hoje para sempre... 
por outro lado, é isso que, por definição, acontece ao passado. 

sinto-me mal, independentemente de...

2021/02/16

long distance call

- o meu... coiso... é pequeno.

- tu és doido!

- sou doido, sou... isto são muitos anos a virar pintos... 


afterburn:

- vi o que postaste... só tu :D

- só eu, não... há mais desgraçados...

- :D

2021/02/13

coisas de ler

"crescera num ambiente complicado em relação ao sexo. o pai sempre fora um malandro simpático, demasiado malandro e simpático para os gostos da mãe. uma vez bebera de mais e confessara ter falhado como marido, saíra-se com a frase bonita - "não consegui fazer da tua mãe minha amante". pois. a mulher, em contrapartida, achara que ele o conseguira bem de mais com outras!" 

"imitaram os parzinhos, foram namorados oficiosos à conversa sobre tudo e nada, com uma excepção: o passado dela. Francisco não insistiu. quando o sol se pôs, nas montanhas e não no mar, como ela estava habituada, cavalgaram a vespe e ala apertou-lhe a cintura com mais força, provavelmente por agora descerem e o calhambeque saborear a adrenalina da velocidade. ou talvez não, pois Francisco iniciou a subida rumo ao Puablo Español e a maquineta, reduzida à sua insignificância, trotava a passo de caracol. o facto é que continuou agarrada a ele como uma lapa, seria assim tanto o medo de cair?"

"- mas, na minha idade e nesta casa já vi e ouvi muita coisa, por isso vos digo sem receio: não decidir nada é uma decisão como outra qualquer e significa que as vantagens da situação permanecem maiores do que as desvantagens, apesar do sofrimento que possa existir. (...)

- não será por razões morais que deixareis ou não os homens que se cruzam nas vossas vidas, mas porque dentro de vós algo decidirá que chegou a hora."

"- Cláudia, eles têm razão, até com a cabeça limpa o amor é difícil, quanto mais com pedras no sapato. se desistir de um objecto tão importante e desejado vai se difícil resistir à tentação de o atirar à cara de Ana numa daquelas discussões corriqueiras que surgem na vida dos casais. e não seria justo, não acha? o seu sacrifício estaria sempre escondido na manga, você teria um ás de trunfo para jogar porque a Ana a obrigara a desistir de si por ela. e não é assim, Cláudia, se não fizer a operação será uma decisão sua com determinadas consequências e não um investimento para no futuro lhe dar superioridade moral. de resto, não creio que a alternativa seja necessariamente a separação, pelo menos imediata. compreendo o horror da Ana ao imaginar o desaparecimento de um corpo amado e desejado, mas talvez o erotismo resista à modificação física. se, como disse, ela lhe ama a cabeça, bom, talvez suporte sem dramas um pénis, por alguma coisa, em frança, lhe chamamos la petite différence."


sublinhados num livro não genial, mas ainda assim... "olhos nos olhos", de júlio machado vaz